Cineastas de Brasília
2º Simpósio de Língua e Literatura UniCEUB (Maio
2004)
Íntegra da palestra de Raquel Sá
Boa Noite! Em primeiro lugar gostaria de agradecer a professora
Cândida pela oportunidade de falar sobre o cinema brasiliense
e o meu livro, Cineastas de Brasília.
Eu me interessei por cinema ainda criança. Lembro
que o primeiro filme que me marcou foi Pinóquio, que
assisti aos três anos de idade. Em uma cena, ele se
perde de seu pai Gepetto e chorei tanto no cinema que minha
mãe teve que me tirar da sala de exibição
para não incomodar mais os outros espectadores. Mas
voltei no final para ver que tudo terminava bem. Depois, aos
sete anos, assisti A Noviça Rebelde na televisão.
Gostei bastante do filme. Tanto que, aos dez, quando já
tínhamos videocassete em casa, eu aluguei o filme sete
vezes. Foi a fita que me viciou no cinema.
A partir de então, passei a assistir a todos os tipos
de filmes. Por meio do cinema, conheci novos lugares, novas
pessoas e entendi coisas que já tinham tentado me explicar
na realidade, mas foi bem mais fácil compreender vendo
que elas são universais. Além disso, descobri
novas formas de ver o mundo e contar histórias.
Aos 14 anos decidi que estudaria Cinema na universidade,
mas por pressão paterna, estudei também Jornalismo
e foi ótimo. Descobri que era muito mais cinéfila
que cineasta, gostava mais de assistir aos filmes, comentar
com os amigos, do que realmente participar da realização
de filmes. Por isso admiro tanto quem faz cinema no Brasil,
principalmente fora do eixo Rio-São Paulo, como é
o caso do Sérgio Moriconi aqui ao lado. Sei como é
difícil correr atrás de verba para produzir,
e depois conseguir um espaço nas salas de exibição.
Fiz as duas faculdades em São Paulo e só conheci
a produção local quando voltei para cá.
Em 2000, cobri o Festival de Brasília para o site Candango
e descobri os diretores locais. O filme de abertura foi Barra
68, de Vladimir Carvalho, tinha 15 filmes de iniciantes brasilienses
nos curtas 16 mm e o grande premiado em curta 35 mm foi Sinistro,
de René Sampaio.
No ano seguinte, trabalhando para o mesmo site, entrevistei
Afonso Brazza, Betse de Paula e William Allves. Fiquei encantada
com a diversidade da produção dos diretores
que conheci. Eram somente seis: o documentarista Vladimir
Carvalho; o professor da UnB Marcos Mendes, representante
da geração de alunos que seguiu os passos de
Vladimir no documentário; René Sampaio, que
prefere trabalhar o formato de ficção ao documentário,
e faz filmes com boa comunicação com o público,
de bom acabamento técnico, que adquiriu ao atuar como
diretor de comerciais, assim como a maioria de seus companheiros
dos anos 90; William Allves, que tem uma preocupação
social forte, de levar a produção também
para os mais pobres, organiza a Mostra de Taguatinga e, na
época, mostrava filmes 16 mm nas escolas públicas
nas cidades-satélites, e produz tanto ficção
e documentário, como boa parte dos membros da geração
2000; Betse de Paula, que dirige comédias românticas
com humor carioca, e desde que mudou para Brasília,
em 1991, transformou a cidade em cenário ou tema de
seus filmes e Afonso Brazza, que fazia uma espécie
de bang-bang no cerrado, filmes de ação com
poucos recursos mas muita criatividade e humor.
Nesse período, descobri que os filmes locais marcavam
presença nos principais festivais de cinema do Brasil
e do exterior, ganhando prêmios e elogios.
No final de 2001, curiosa em saber mais do cinema local,
as dificuldades de produção, os bastidores de
filmagens, as influências, decidi escrever um livro
para juntar as minhas duas principais paixões: o jornalismo
e o cinema. E como gosto muito de ler entrevistas, quis fazer
um trabalho que fosse agradável tanto para mim quanto
para os leitores.
O livro visa traçar um painel da produção
cinematográfica brasiliense dos primeiros anos até
os dias atuais, com base em entrevistas com 51 cineastas de
diferentes gerações. A seleção
de entrevistados abrange desde professores da primeira turma
do curso de Cinema da Universidade de Brasília, como
o cineasta Nelson Pereira dos Santos e o crítico e
roteirista Jean-Claude Bernardet, até membros da novíssima
geração, que começou a produzir nos últimos
quatro anos.
O principal objetivo do trabalho é a preservação
da memória cinematográfica da cidade. As entrevistas
estão divididas por décadas para contar a evolução
do cinema local. Quem quiser comprar o livro, eu trouxe três
exemplares. É só falar comigo depois.
Vou exibir para vocês o filme Tepê, de José
Eduardo Belmonte. O diretor é um dos principais nomes
da geração 90, que cresceu junto com Brasília,
e produz filmes que enfocam a angústia e a crise existencial
de jovens locais, que se sentem pressionados pela arquitetura
fria. Porém, suas histórias são contadas
de modo leve, com muito humor negro ou lirismo para relatar
dramas vividos nessa época da vida, transição
da adolescência para a vida adulta. Este filme foi bem
premiado nos Festivais de Brasília e Gramado. Espero
que gostem.
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